Tem experiências que a gente sabe que vão ser especiais antes mesmo de acontecer. O cruzeiro pelo Nilo foi uma dessas. Quando estávamos planejando a viagem pro Egito, já deu pra perceber que visitar Luxor, Assuã e todos os templos entre elas em deslocamentos terrestres seria cansativo, corrido, e provavelmente frustrante, mas também não dava pra deixar nada de fora. A alternativa? Fazer como os faraós faziam há 3.000 anos: navegar pelo Nilo.
Reservamos um cruzeiro de 4 noites saindo de Luxor até Assuã através da Civitatis. Tem dezenas de barcos fazendo essa rota, desde os super luxuosos de categoria superior até os mais básicos. Escolhemos a Civitatis especificamente porque dava pra ver as avaliações de quem já tinha feito, e notamos que tinha muitos brasileiros nos grupos – o que significava guias falando português. Geralmente fechamos as coisas com empresas locais ou direto lá pra dar uma economizada. Mas não dá pra brincar com o Egito. Quando você chega em um ponto turístico tem tanta gente querendo falar com você, vender as coisas ou oferecer algo que fica sempre meio perdido. Já entrei em umas furadas antes, então de vez em quando acho melhor pesquisar com calma em casa pra só depois fechar.
Como Funciona e Como Reservar
O cruzeiro inclui tudo: cabine com ar-condicionado, todas as refeições (café da manhã, almoço e jantar), as excursões para os templos com guia em português, e até o transfer de volta pro aeroporto ou hotel em Assuã. O único extra obrigatório é o ingresso da tumba de Tutancâmon (uns 70 reais) se você quiser entrar (mas vamos lá né.. você não vai perder a chance de ver a casa final do menino rei mais famoso do mundo).
Cada agência vende de um jeito nesses sites de viagens. Esse pacote do Civitatis não tem um barco específico, só uma categoria, tipo alugar carro que pode vir qualquer um. Eles mandaram email avisando qual seria uma semana antes da viagem. Pegamos o MS Carnival (ironicamente uma mistura das duas grandes empresas de cruzeiro né.. a MSC e a Carnival que fomos ano passado).
Sobre quando reservar: se você deixar pra última hora e já estiver em Luxor ou Aswan, consegue encontrar preços mais baixos negociando direto com agências locais ou até na hora do embarque. Mas aí você corre o risco de pegar um barco menos cuidado, sem guias em português, ou em categoria inferior. Como a gente tinha um roteiro apertado e queria garantir qualidade, reservamos com antecedência pela Civitatis. Valeu a pena pela tranquilidade e pela certeza de que estava tudo organizado. Vale dizer que os barcos vão e voltam, então você pode comprar o cruzeiro pra qualquer um dos sentidos.
Dia 1: Embarque em Luxor
Chegamos em Luxor dois dias antes saindo de Milão. A gente queria um dia livre pra conseguir visitar algumas atrações com mais calma antes. A tarde fizemos o embarque (o porto era meio bagunçado e muita gente ainda querendo vender) e a primeira impressão foi boa. Cabine dupla espaçosa o suficiente, banheiro privativo de um tamanho normal para cruzeiro, ar-condicionado potente (essencial no calor egípcio), e uma pequena janela com vista pro Nilo.
O barco tinha quatro andares: cabines nos dois primeiros, um deck intermediário com restaurante e área comum, e o deck superior aberto com espreguiçadeiras e uma piscina pequena. Nada extremamente luxuoso, mas limpo, organizado, e confortável.
À noite, depois do jantar, começamos a navegar em direção a Esna. Depois do jantar vale a pena sentar no deck pra curtir a paisagem e a brisa.
Dia 2: Templo de Luxor, Karnak e Navegação até Edfu
Acordamos cedo. O café da manhã era servido em sistema de buffet – nada excepcional, mas tinha opções suficientes: pães, frutas, ovos, queijos, sucos. Comida típica de hotel mediano.
Depois do café, desembarcamos para visitar o Templo de Luxor e o Templo de Karnak. Já tinha visitado os dois templos uns anos atrás, mas voltar com um guia que explicava cada detalhe foi outra experiência. Ele mostrou hieróglifos que eu tinha passado batido, contou histórias sobre as batalhas retratadas nos relevos, e explicou o simbolismo por trás da arquitetura. A Sala Hipóstila continua sendo um dos lugares mais impressionantes que já vi – 134 colunas gigantes, algumas ainda com pigmentos coloridos preservados.
No Templo de Luxor, o destaque foi a Avenida das Esfinges que estava sendo restaurada. O guia explicou que quando o projeto estiver completo, vai ter 3 quilômetros de esfinges conectando Luxor a Karnak. Imagina só o impacto visual disso.
Voltamos pro barco no almoço. A comida era ok – nada que você vá lembrar como highlight da viagem, mas razoável. Arroz, frango, legumes, sempre alguma opção vegetariana. Aqui não é cruzeiro no Caribe né.. você não veio pra comer e pegar praia.. ahaha
À tarde navegamos em direção a Edfu, passando pela eclusa de Esna – um momento curiosamente interessante. A eclusa regula o nível da água entre diferentes partes do Nilo, tipo uma versão em miniatura do Canal do Panamá, e vários barcos atravessam juntos. Enquanto esperávamos, vendedores em pequenos barcos se aproximavam jogando produtos amarrados em sacolas pros passageiros nos decks superiores. Era um caos organizado: lenços, galabeyas (túnicas egípcias), souvenirs sendo lançados pra cima, turistas pegando, examinando, negociando gritando de um barco pro outro, e devolvendo (ou pagando) da mesma forma. Bizarro e divertido ao mesmo tempo.
Dia 3: Edfu, Kom Ombo e Assuã
Esse foi o dia mais intenso. Acordamos cedo de novo e desembarcamos em Edfu pra visitar o Templo de Hórus. Pegamos uma charrete puxada por cavalo (eu sei.. bizarro.. turismo com animais hoje em dia.. mas infelizmente era a única opção até o templo) – cerca de 10 minutos de trajeto.
O Templo de Hórus é dedicado ao deus com cabeça de falcão e é um dos mais bem preservados do Egito. Foi construído durante o período ptolemaico (bem mais recente que a maioria – “apenas” 2.000 anos), e isso explica o estado de conservação impressionante. Os hieróglifos nas paredes são nítidos, as estátuas de Hórus flanqueando a entrada estão praticamente intactas, e o interior ainda tem o teto preservado, o que cria aquela atmosfera de penumbra que falta em templos abertos ao céu.
Voltamos pro barco, almoçamos, e seguimos navegando. À tarde, paramos em Kom Ombo pra visitar o templo dedicado a dois deuses: Sobek (o deus crocodilo) e Hórus (de novo). O diferencial desse templo é que ele é perfeitamente simétrico – cada metade espelhando a outra, cada deus com sua própria seção.
O museu do crocodilo ao lado exibe múmias de crocodilos que eram sagrados na antiguidade. É pequeno, meio estranho, mas curioso. E o pôr do sol visto do templo, com o Nilo ao fundo, foi dos mais bonitos da viagem.
À noite chegamos em Assuã, e o barco ancorou perto de dezenas de outros barcos. A vista da janela era literalmente outro barco a centímetros de distância. É assim que funciona – os barcos atracam lado a lado, e você às vezes precisa passar por 3 ou 4 barcos pra chegar ao cais.
Dia 4: Templo de Filae e Assuã
Depois do café, visitamos o Templo de Filae, dedicado à deusa Ísis. Esse templo fica numa ilha e só é acessível de barco. Pegamos uma pequena lancha motorizada que nos levou até lá. A história do templo é interessante: ele originalmente ficava em outra ilha, mas quando construíram a represa de Assuã e o nível da água subiu, o templo ia ficar submerso. Então a UNESCO coordenou uma operação gigantesca pra desmontar o templo pedra por pedra e reconstruir numa ilha mais alta. Imagina a logística disso.
Essa história é muito maluca porque muita gente já passeou por Madrid e visitou o templo de Debod que fica no meio de um parque, sem nem ter ideia que ele veio daqui. Quando foram construir a represa os países quiseram salvar tudo e foi por esse motivo que criaram a UNESCO! Aí alguns templos eles mudaram de lugar pra regiões próximas no Egito, e outros eles deram de presente pros países que ajudaram. Essa é uma excursão opcional pra Abu Simbel, que não está incluída no pacote básico. Fica bem longe de Assuã (cerca de 3 horas de carro). Custou uns 80 dólares a mais.
Dia 5: Desembarque
Depois do café da manhã e do check-out, a gente foi pro hotel pra ficar mais uma noite ali que o voo pro Cairo era só no dia seguinte. O transfer estava incluso, então foi tudo tranquilo.
Vale a pena o cruzeiro no Nilo de 4 noites da Civitatis?
- Os templos são realmente espetaculares. Karnak, Edfu, Kom Ombo, Filae – cada um tem algo único. O guia Ahmed foi muito bom e falava bem português (com aquele sotaque), atencioso, e didático.
- A experiência de navegar pelo Nilo é mágica. Ver as margens passando, as vilas locais, as crianças acenando dos campos – isso não tem preço.
- Os transfers funcionam bem. Isso é um ponto positivo recorrente: tudo pontual, ninguém esquecido, organização impecável.
- Fazer tudo isso de ônibus não ia ser fácil não, além de levar muito tempo. Então você paga pela comodidade.
O que não foi tão bom:
- O nosso primeiro quarto. Na primeira noite percebemos que tinha um barulho de máquina vindo da casa de motores. Foi meio ruim pra dormir, mas no dia seguinte pedimos pra trocar e foi sem problemas.
- A comida. Parece que quase todo dia era a mesma coisa, então vá preparado mentalmente. Também nçao tem nenhuma bebida incluída, nem a água.
- Barcos muito próximos uns dos outros nos ancoradouros. Eu achei que dormiríamos navegando toda noite, vendo a luz da lua e tal, mas não foi assim. Tinha dia que dava janela com janela pro quarto de outro barco parado. Parecia um apartamento que morei em SP.
- Tentativas de venda durante o cruzeiro. Todo tour no Egito é a mesma coisa. Fala que vai te levar no museu do alabastro, papiro ou de perfumes perfumes – que na verdade são lojas turísticas onde tentam te empurrar produtos caros. Eles ficam insistindo pra vender e pedindo gorjeta, mas é só negar.
Vale a Pena? Nossa Conclusão
Se você espera luxo, serviço impecável, e comida gourmet, esse não é o cruzeiro certo (assiste nossos vídeos do Youtube aí dos cruzeiros ano passado que você vai ser mais feliz). Mas se você entende que o foco aqui é a experiência histórica e cultural – navegar pelo Nilo, visitar templos milenares com guias especializados, e viver alguns dias num ritmo diferente – então é absolutamente sensacional.
Os passeios são excepcionais, o Vale dos Reis é inesquecível, e a experiência geral de navegar pelo Nilo supera eventuais problemas logísticos. A gente pegou o barco Standard que era uns 20% mais barato. Eles tem a opção do Luxo mas não sei se é muito melhor.
No fim das contas, voltamos do cruzeiro exaustos (é muita caminhada sob o sol, muita informação histórica, muito estímulo visual), mas profundamente satisfeitos. Conhecemos brasileiros legais que viraram amigos de viagem. Vimos templos que jamais esqueceremos. Navegamos pelo rio que é sinônimo da civilização egípcia. E entendemos, finalmente, por que o Egito Antigo construiu tudo às margens do Nilo – porque esse rio é o Egito. Ele é muito grande e só perde pro Amazonas, tanto em volume de água quanto em extensão.
Então sim, faça o cruzeiro. Leve expectativas realistas, protetor solar em quantidade industrial, paciência com vendedores insistentes, e prepare-se pra viver uma das experiências mais incríveis que o turismo histórico pode oferecer.