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Vou me embora pra Pasargada – O que visitar no Irã

Nove entre dez crianças brasileiras já tiveram que decorar o poema: “Vou me embora pra Pasargada”. Na época ninguém se interessa em saber se Pasargada é um lugar de verdade ou se é da imaginação do Manuel Bandeira o harém e o rei seu grande amigo. Mas nós fomos tirar isso a limpo, e vamos mostrar pra vocês não só a cidade, mas todas as atrações do antigo Império Persa, e o que visitar no Irã.

Apesar de parece pequeno para nós brasileiros, o Irã está entre os 20 maiores países do mundo, então uma viagem de norte a sul levaria dias! Pra vocês terem uma ideia, pegamos o trem de Mashhad no norte para a capital Teerã no centro do país e levou mais de 12 horas! Vou citar então as cidade que visitamos, e da próxima vez que for pro Irã eu atualizo com mais cidades.

Mashhad – A capital religiosa

Essa cidade que fica próxima a fronteira com o Afeganistão e Turcomenistão não estava em nosso roteiro inicial por ficar bem afastada das outras cidades. Mas o destino chegou e mudou nossos planos. Iríamos primeiro para o Teerã, que tinha voos mais baratos, mas nosso visto online não ficou pronto a tempo. Até tentamos ir para o aeroporto e embarcar sem visto mesmo, mas foi negado. A própria funcionária da companhia aérea que sugeriu algumas cidades que não precisariam de visto antecipado, e uma delas era Mashhad. Compramos nosso novo voo para três dias depois e embarcamos.

Mashhad é a segunda maior cidade do Irã, e a capital religiosa, por causa de seu grande santuário dedicado ao Imam Reza. Da mesma forma como os muçulmanos devem ir a Meca, e os hindus a Varanasi pelo menos uma vez na vida, os persas devem vir para este santuário.

Havia milhares de peregrinos quando chegamos, e eles passam o dia no complexo do santuário, fazem piquenique, leem livros, as crianças brincam. É como se fosse a praça central de uma cidadezinha do anterior de antigamente.

Mas o que nos surpreendeu mesmo foi o interior, todo feito de mosaicos de vidro. Algo realmente incrível que nunca havíamos visto antes (outras mesquitas do Irã também são assim, mas essa nos impactou mais, talvez por ter sido a primeira que visitamos).

Mesquita Imam Reza em Mashhad

O Irã também tem poetas (até mais famosos que Manuel Bandeira)

Basicamente essa é a única grande atração. Mas se você já está na cidade vale a pena visitar o túmulo do Ferdowsi. Primeiro achamos que seria algo tipo um cemitério, bem fúnebre com as pessoas tristes. Na verdade Ferdowsi foi um grande poeta iraniano e as pessoas tiram fotos em seu túmulo e aproveitam o local como se fosse um parque normal. Vai ver era por isso que Manuel Bandeira dizia “Vou me embora pra Pasargada”. Aqui as pessoas realmente amam os poetas.

Seguindo viagem, decidimos pegar o trem para Teerã. O voo não seria caro e levaria muito menos tempo, mas ouvimos dizer que o Irã tinha o trem de primeira classe cinco estrelas mais barato do mundo! Pagamos 150 reais na passagem cada um incluindo refeição e translado pro hotel quando chegássemos no destino. A cabine do trem é preparada para quatro pessoas, com quatro camas e quatro poltronas, mas por causa do Covid reduziram a ocupação. Logo montamos nossas camas e dormimos confortavelmente pelas próximas 12 horas. Te falar que tem muito mais espaço que a cabine executiva de um avião, mas infelizmente eles não tem cobertores muito confortáveis.

Trem primeira classe 5 estrelas mais barato do mundo

Teerã – Onde estão os museus para visitar no Irã

Para visitar Teerã você precisa de cinco minutos pra aprender o básico da história recente. Em 1925 um oficial do exército persa tomou o poder dos britânicos e se tornou rei. Ele mudou o nome do país para Irã e desenvolveu a infra estrutura para que não fosse tão dependente das potências da época. Mas na Segunda Guerra Mundial o Irão foi invadido pela União Soviética e Inglaterra e fizeram o rei abdicar em nome de seu filho, que era mais alinhado com os objetivos daqueles países. Esse rei se tornou um ditador com o passar dos anos e se voltou totalmente a favor dos Estados Unidos, ocidentalizando o país. Os opositores eram religiosos xiitas e não gostaram disso, então em 1979 o Aiatolá Khomeini tomou o poder com a Revolução Islâmica.

Antiga embaixada dos Estados Unidos

Continuando a história, o antigo rei fugiu do país para não ser assassinado. Ele passou por alguns lugares antes de se exilar nos Estados Unidos (amigo é pra isso né, emprestar o sofá quando você é expulso de casa).

Os iranianos exigiam que ele fosse enviado de volta e no final de 1979 invadiram a embaixada dos Estados Unidos no Teerã e fizeram 64 americanos reféns. No final ninguém cedeu, o antigo rei morreu no exílio e os reféns foram libertados quase 2 anos depois. Os embargos americanos que devastam o país começaram com essa invasão.

A embaixada americana palco desse evento virou um museu de espionagem, e as paredes são todas pintadas com imagens relacionadas ao Trump, e outros ícones dos Estados Unidos.

Antiga embaixada dos EUA e suas pinturas anti-americanas

Museu da Prisão Ebrat

Outro lugar que nos impactou muito foi o museu da prisão de Teerã. Lá os presos políticos dos ultimos anos de regime do rei eram mantidos e torturados. Já visitamos muitas prisões, mas essa mostra com bonecos de cera as torturas!

Passamos por uma porta e depois de cara com uma pessoa crucificada na grade com o rosto todo cheio de sangue! Essa foi só a primeira, fora todas as fotos dos corpos de presos assassinados. Não é um lugar recomendável para crianças, mas é bem interessante para adultos.

Vimos em um blog antes de ir o seguinte questionamento: O reinado acabou em 1979, mas a prisão só foi fechada mais de 30 aos depois, e também por denúncias de torturas. Porque não exibem essas informações no museu?

Museu da Prisão do Teerã (Dá pra ver as estátuas de cera ali?)

A estação de Ski mais barata do mundo

Mas nem tudo é sobre a guerra no Teerã! A cidade tem a estação de ski mais barata do mundo, e também a mais acessível!

A estação de ski fica a apenas 15km do centro da cidade. Pegando um Snapp (o Uber iraniano) você não irá gastar mais do que 10 reais. O dia de ski, incluindo os equipamentos, custa menos de 200 reais por pessoa. Quem disse que esquiar era um esporte de rico deve ter visto nosso roteiro pela Suíça, mas nunca veio para o Irã.

Hormuz – A cidade do mar vermelho e montanhas coloridas

Outro destino daquele totalmente fora do roteiro foi Hormuz. Uma ilha no sul do país com montanhas coloridas e cavernas de sal. Mas o que nos animou a visitar o local foram essas fotos do mar vermelho! O que acontece ali é que as montanhas tem muito ferro, que com o tempo vão se oxidando formando a ferrugem. Quando a maré sobe e chove a água bate nas pedras e leva para o mar essa ferrugem, deixando tudo vermelho!

O mar vermelho do Irã

Mesmo no inverno a praia estava cheia, com algumas pessoas tomando banho de mar em suas águas frias. Só sugiro não entrar na água de cabeça de tiver cabelos loiros. Encontramos esse Golden Retriever que não seguiu a recomendação e agora tem essa cor meio punk! No final parece que ele ficou feliz mesmo assim.

Golden Retriever que curtiu uma praia

Shiraz – A mesquita rosa paraíso dos Instagrammers

Se você considerou viajar para o Irã porque viu fotos por aí, provavelmente é de Shiraz que você está interessado. Nessa cidade fica a Mesquita Rosa, ou Mesquita Colorida. Ela foi construída em 1888 e é chamada de mesquita rosa por causa desta cor, mas o que impressiona mesmo são esses vitrais que deixam as luzes solares entrarem.

Uma dica: O sol aparece entre as 7hs e 11hs. Quanto mais cedo mais sol e menos gente. Roupas brancas refletem melhor a luz, mas se você não tiver nenhuma os voluntários da mesquita podem te emprestar um chador desse claro. A menina era tão gente boa que quis ajudar a montar a Soraya e quis tirar fotos dela!

As fotos ficaram ótimas e ela era só uma voluntária ali. E eu digo só voluntária porque tem uma fotógrafa oficial no lugar e ela também pediu pra tirar umas fotos nossas pro portfolio, mas as fotos ficaram tão feias. Deu até dó.

Iraniana produzindo a Soraya

Persépolis e Pasargada – as ruínas do antigo império persa

Se você assistiu o filme 300, em que Gerard Butler é o mocinho, líder do exército grego que tem somente 300 soldados que luta bravamente até a morte (opa, spoiler!), também vai se lembrar do vilão de três metros de altura sem nenhum pelo no corpo. Rodrigo Santoro interpretou Xerxes, o rei persa conquistador de terras.

Xerxes nasceu e cresceu em Persépolis, que foi construída pelo seu pai, Darius. Hoje sobraram ruínas dessas cidade cheia de esculturas e cenas de guerras desenhadas em suas paredes. Uma das cenas mais comuns é o leão comendo o touro, que na época significava a primavera (leão) superando o inverno (touro). As estátuas mais famosas são essas da porta, de cabeças humanas em corpos de animais, ou a inteligência somada a força.

A dica aqui é imperdível. Logo antes dessa estátua tem algumas pessoas oferecendo uma amostra grátis de um óculos de realidade virtual, tipo esses de vídeo game. Quando você coloca o óculos consegue ver as construções restauradas, estátuas inteiras e pintadas, como se estivesse lá na época de Xerxes! Eu nunca havia visto isso em nenhuma atração no mundo! Quero muito que façam igual no Coliseu, Machu Picchu, e todas as outras ruínas pelo mundo!

Sabe o “vou me embora pra Pasargada”? Não é aqui, essa é Persepolis

E o vou me embora pra Pasargada?

Pasargada foi construída pra ser a capital do império persa antes de Persépolis . O construtor foi Ciro, pai de Darius. Mas infelizmente seu túmulo foi a única estrutura que restou da cidade. Eu sei que você está lendo esse post somente por causa de Pasargada, mas sinto te informar que é a atração que tem menos graça no Irã. Fica no caminho entre Persépolis e Esfahan, então vale a pena dar uma parada, mas você não vai gastar mais do que 15 minutos. É só isso e Vou me embora de Pasargada.

Vou me embora pra Pasargada é só esse prédio mesmo

Esfahan – A cidade das Pontes

Esfahan tem algumas dezenas de pontes, uma do lado da outra, umas mais novas e outras bem antigas, como a mais famosa, Si-o-se Pol de 1600! Chamada de ponte de 33 arcos por causa de sua construção que lembra os arcos da Lapa do Rio de Janeiro. Durante a noite fecham-se as comportas de água e a parte debaixo da ponte fica seca, onde os habitantes da cidade passam para socializarem. Uma ponte que vale a pena visitar de dia e de noite.

A cidade é famosa também por quase ser detentora de um recorde mundial. A praça Naqsh-e Jahan é a segunda maior praça do mundo, perdendo apenas para a Praça Tianmen na China. A praça foi construída pelo imperador na mesma época da ponte de 33 arcos.

Ela tem duas mesquitas, uma exclusiva para as mulheres do harém do imperador. Para chegar até a mesquita saindo do Palácio que fica de um lado, até a mesquita do outro, foi construído um túnel de ponta a ponta da praça. Assim elas poderiam atravessar sem serem vistas pelas pessoas que estavam no local.

No centro da praça havia um campo de polo, aquele jogo em que os jogadores ficam em cima de cavalos tentando marcar gols com um taco de madeira e uma bolinha. Aliás, você sabia que criaram esse jogo no Irã? Enquanto isso da varanda do palácio, os nobres poderiam assistir às partidas.

Esfahan e sua ponte de 33 arcos

E o poema “Vou me embora pra Pasargada” ?

Manuel Bandeira nunca visitou Pasargada, mas ele considerava esse lugar como um refúgio, um paraíso que ele poderia ir para fugir de seus problemas cotidianos. Hoje em dia está mais fácil visitar o Irã, então quem sabe você não dá uma fugidinha para lá também?

Vou me embora pra Pasargada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou me embora pra Pasargada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

Vou me embora pra Pasargada

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3 Comments

  • 5 imperdíveis pontos históricos de Paraty, RJ - O Mundo em Lanches

    […] 4.Raphael pimentel – Vou me embora pra Pasargada – o que visitar no Irã […]

    10 de março de 2022 at 13:24 Reply
  • Patrícia

    Como sempre os vossos posts não desiludem. Adorei ler o post e também eu não sabia onde era Pasargada.

    11 de março de 2022 at 14:34 Reply
  • Ouro Preto: Dicas para não passar perrengue - O Mundo é Seu

    […] Destino de Casal – O que visitar no Irã […]

    11 de março de 2022 at 14:48 Reply
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